Moda Lisboa, Maricarmen e Um Conto

 Bom dia.


Hoje partilhamos:

(i) o interesse da Moda Lisboa, como evento de moda e de alerta para a causa ambiental sem descurar a qualidade de vida e a possibilidade de acrescentar beleza à vida.

Mais informação em https://modalisboa.pt/


(ii) o falecimento de Maricarmen Abascal no contexto do despejo da sua casa em Madrid (Espanha).

Mais informação em https://www.publico.pt/2026/10/08/mundo/noticia/maricarmen-morreu-voltar-casa-espanha-saiu-rua-2190766


E finalmente, partilhamos um conto que nos fala de habitação num contexto ambiental extremo, e em como surge como imposição a causa da proteção da natureza, uma situação que não deverá existir. A causa ambiental deve resultar de uma consciencialização coletiva, acima de tudo, aliás esse é um dos objetivos deste blog. Afinal gerir bem a casa comum deve ser algo fundamental.


Agora Pode, por Cláudia Lima (Brasil)

Depois de anos vivendo em uma sociedade em que o homem havia transformado a natureza de acordo com suas necessidades, os moradores daquela pequena cidade resolveram eleger um candidato que prometia mudar tudo e transformar a cidade na melhor do mundo.
Foi eleito.
A primeira providência do novo prefeito foi baixar decretos. Um atrás do outro.
Não pode fazer barulho. Não pode gastar mais de cinco litros de água por dia. Não pode fazer queimadas. Não pode jogar lixo na rua. Não pode isso, não pode aquilo.
E os decretos eram tantos que, depois de algum tempo, ninguém sabia mais por que precisava obedecer a tudo aquilo.
A cidade havia se tornado uma sociedade despótica.
Um dos últimos decretos determinava que todos deveriam fazer suas roupas, suas casas e seus utensílios utilizando materiais que não prejudicassem a natureza.
Ninguém foi consultado.
Não houve reunião, votação ou discussão.
Houve apenas o decreto.
E, como quase tudo naquela cidade, o decreto deveria ser cumprido.
Naquela época, já não havia muitas árvores. As poucas que restavam não podiam ser cortadas nem usadas para fazer móveis, papel, portas ou janelas. Também era proibido retirar da natureza qualquer material que pudesse causar algum tipo de prejuízo ou destruição.
O prefeito queria uma cidade sustentável.
Ou, pelo menos, queria que ela parecesse sustentável.
Seu Nicanor não estava preocupado com as intenções do prefeito. Estava preocupado em cumprir a lei e, se possível, descobrir alguma maneira de viver dentro dela.
Tinha a maior casa da cidade. Era feita de barro, folhas secas e madeira que havia caído naturalmente.
Mas seu maior orgulho ficava nos fundos.
Ali havia um coletor de água da chuva feito com o tronco de uma árvore que caíra durante o último verão.
Um dia, um vizinho perguntou:
— O senhor derrubou a árvore?
Nicanor olhou para o tronco.
— Não. Ela caiu sozinha.
O vizinho ficou alguns segundos em silêncio.
— E pode usar?
Nicanor deu de ombros.
— Agora pode.
O homem foi embora sem saber se tinha aprendido alguma coisa.
Nicanor era o único morador oficialmente sustentável.
Por isso, começou a receber prêmios.
Primeiro, um certificado.
Depois, uma medalha.
Em seguida, uma placa.
Mais tarde, outro certificado, outra medalha e uma placa maior.
Nicanor tornou-se, oficialmente, o cidadão que mais valorizava a preservação da natureza naquela cidade.
O prefeito gostava de repetir isso nos discursos:
— Seu Nicanor é um exemplo para todos!
Nicanor sorria.
Não sabia se era realmente um exemplo, mas não pretendia discutir com o prefeito.
A fama de sua criatividade se espalhou. Muita gente começou a procurá-lo.
— Como o senhor conseguiu fazer isso?
— O que podemos aproveitar?
— Podemos usar o barro?
— E essas folhas?
— E esse pedaço de madeira?
Nicanor percebeu que as pessoas não sabiam mais o que fazer com aquilo que a natureza ainda lhes oferecia.
Então teve uma ideia.
Reuniu os moradores.
— Vamos aprender juntos a aproveitar o que encontramos na natureza, sem destruí-la.
Pediu que todos recolhessem folhas, galhos, pedaços de madeira, barro, sementes, cascas e tudo aquilo que estivesse no chão e pudesse ser aproveitado.
No dia marcado, apareceu de tudo.
Um homem chegou carregando um galho enorme nas costas.
— Isso serve?
Nicanor examinou o galho.
— Serve.
Uma mulher apareceu com um saco cheio de folhas.
— E isso?
— Também.
Um menino trouxe uma casca de árvore quase se desfazendo nas mãos.
Nicanor olhou.
— Essa talvez sirva para alguma coisa.
No fim da manhã, o terreno estava cheio de coisas que, até então, pareciam não servir para nada.
Nicanor pegou uma folha grande e colocou sobre a cabeça.
— Para um dia de sol, não é ruim.
Alguns riram.
Depois, começaram a trabalhar.
Os galhos viraram cercas. As toras, bancos. O barro virou pequenos blocos para as paredes. As folhas serviram para cobrir partes das casas. As sementes foram para a terra.
No final da tarde, havia bancos, cercas improvisadas, pequenas peças de barro e algumas mudas enterradas no chão.
Ninguém tinha cortado uma árvore.
Ninguém tinha retirado uma pedra de onde ela estava.
Ninguém tinha desobedecido ao prefeito.
Nicanor olhou para o que haviam feito.
— Não ficou tão ruim.
Foi o suficiente para que continuassem.
Nicanor pediu que anotassem as ideias.
O inventário cresceu.
Quanto mais aprendiam a reaproveitar, menos precisavam retirar da natureza.
O decreto, que havia começado como uma ordem, acabou produzindo uma consequência que nem mesmo o prefeito havia imaginado.
Ao final daquele mês, todos conseguiam cumprir a determinação.
Mas ninguém queria apenas cumprir o decreto.
Queriam preservar.
Passaram-se alguns anos.
As casas antigas foram sendo substituídas por construções simples, feitas de barro e pau a pique. As árvores que ainda existiam foram preservadas. Novas árvores foram plantadas.
A floresta começou a se recuperar.
Os pássaros voltaram. Depois, apareceram os pequenos animais.
Pouco a pouco, a cidade ficou mais verde.
O prefeito continuou fazendo discursos sobre sua grande política ambiental.
Nicanor continuou recebendo certificados, medalhas e placas.
Já não se importava muito com os prêmios.
Estava velho quando percebeu que aquela história havia tomado um rumo que ninguém planejara.
Sentado à sombra de uma árvore que crescera perto de sua casa, contou aos netos:
— Quando tudo começou, ninguém queria aquele decreto.
— E o senhor queria? — perguntou um deles.
Nicanor pensou por alguns segundos.
— Não.
— Então por que obedeceu?
Ele olhou para a árvore, depois para os netos.
— Porque, às vezes, até uma ordem de um governante autoritário pode ensinar alguma coisa boa.
Os netos ficaram em silêncio.
Nicanor sorriu.
— Mas não contem isso ao prefeito.
Os três começaram a rir.
Nicanor olhou para a árvore.
A floresta havia vencido o prefeito.
E talvez essa fosse a única coisa naquela cidade que ninguém conseguira decretar.


Até breve.

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