Um sonho num conto

Boa noite.


Hoje publicamos um conto vencedor do Concurso Literário Natureza 2019.


Um menino sonhando, Sónia Rodrigues (Canadá)


A tarde caía e das bandas do rio vinha um nevoeiro branco e espesso, que cobriu tudo, o 

avô, o menino e o jardim. O avô, pincel na mão, não ousando imitar as aquarelas de Deus.    

Ele  dizia ao menino: -Essa vida é sonho. Somos o sonho de Deus. Até escrevi uma poesia sobre esse tema. 

O avô era assim, tinha muito de poeta, um pouco de cientista e até uma pitada de filósofo. 

O menino gostava, pois ele também era, como toda criança, um pouco poeta, um pouco filósofo, 

um pouco cientista. Era consolador pensar que a vida é sonho. Um sonho não existe de verdade, 

e o que  não existe de verdade não pode morrer. 

O menino falou: -Deus estava inspirado quando criou as borboletas. 

O menino estava triste por causa dos cada vez mais raros insetos em seu jardim, e pensava: 

“Depois dos insetos, morrem os passarinhos, pois não têm mais o que comer, e depois dos 

passarinhos, as aves de rapina, e depois...um dia nós acabamos também, pobre de nós.” 

Aí uma ideia bem estranha lhe passou pela mente: que nada acaba de verdade, porque nada 

existe de verdade. 

Avô e menino estavam ali, olhando a tarde. O vento rodopiava as nuvens e observando o 

catavento de cores escarlates, o menino sonhou, sonhou acordado, que é a mais gostosa 

maneira de sonhar. Em seu sonho, Deus lhe aparecia na forma de uma borboleta e o convidava 

a ir ao Tempo do Sonho. 

Na Austrália, os aborígenes dizem que no princípio os deuses sonharam o mundo. O mundo é 

criado a cada dia, pois o mundo só pode existir quando tem alguém sonhando, cada sonhador é 

assim um co-criador do mundo.  Então esse povo até hoje vive sonhando pelos caminhos do 

deserto para que o mundo não se acabe. 

Nas cores intensas das nuvens, o menino aterrissou em Kuringai, uma bela região de 

Sydney que ele conhecia por ter visitado seus primos durante o verão.  

Enquanto viajavam, o menino apreciava os dedos de Deus pincelando aromas nas árvores, 

nas flores, nas frutas, tudo tão cheiroso e bom. 

O menino pode ver o tempo regredir, até antes dos primeiros homens chegarem na maior 

ilha do mundo. Até antes de existirem os primeiros marsupiais, cangurus, coalas e todos aqueles 

animais bem estranhos da Austrália. Até antes dos ornitorrincos e até antes do continente 

Pangeia ter se partido, então o menino viu o planeta todo bem quente, bem úmido e cheio de 

samambaias gigantes, tantas que nem havia lugar para nenhum outro ser, nem bicho, nem 

planta. 


Ele sentiu a mão de Deus explicando: - Assim não dava para continuar, tanto verde, tanto oxigênio, tanta alga que surgiu no mar. 

Aí as samambaias morreram em massa, morreram quase todas de uma vez e se transformaram 

em combustível fóssil, em turfa, em carvão e no que hoje vocês chama de petróleo. Você sabe, 

cada coisa tem seu tempo e o tempo das samambaias gigantescas acabou, elas vieram e 

cumpriram sua missão.


- Então é isso que cada ser vivente faz aqui, cumprir a sua missão! 

Ele sentiu a brisa em seus cabelos, que era o jeito de Deus lhe fazer um carinho, e gostou. 

O planeta evoluiu, e o menino ficou assistindo de camarote o desfile dos dinossauros e a sucessão 

das espécies.

  

Você sabia que essa não é a primeira extinção em massa que ocorre em nosso planeta, já 

desapareceram os primeiros trilobitas, as plantas gigantes, os dinossauros, agora é a vez dos 

mamíferos que você conhece, como o urso, o bisão, o lobo, tantos passarinhos e tantos insetos 

que nem dá para dizer todos os nomes, alguns nem sequer foram catalogados pelos seus 

cientistas. 

Tudo sonho meu. 

Eu sonho bonito, 

você não acha? 


O menino viu a água do mar evaporar, virar chuva, entrar na terra e ser tragada pelas raízes das 

plantas. A água que era nuvem virou folha, evaporou, virou vapor, choveu de novo, virou rio e 

foi parar na cozinha do avô. Virou chá, foi bebida pelo avô e virou um pedacinho do corpo do 

avô. O avô estava sonhando o mundo daquele pôr-do-sol, daquele dia atual, aqui no Brasil, 

mesmo, pertinho de Sorocaba, onde ficava o sítio. 


Viajar no tempo ou no espaço é fácil para Deus, pensou o menino. 


A natureza toda partilhava as mudanças da água, a terra virava planta, entrava pelas raízes 

e se transformava na planta, depois era comida pelos bichos e virava músculo e osso de bicho, 

depois o bicho morria e o corpo de desfazia e voltava a ser terra de novo, o pó ao pó voltava, 

direitinho como diz a Bíblia. 


O menino entendeu que tudo estava interligado, mesmo, não literalmente, mas 

interligado de verdade, mesmo, uma coisa de transforma na outra o tempo todo. O conjunto dos 

átomos era sempre o mesmo, a mesma matéria se transformando, tomando novas formas, de 

maneira que, se pensarmos bem, nada se acaba realmente, apenas muda de forma. 


O nevoeiro foi se desfazendo e o avô começou a pintar em seu quadro as serras distantes. 

O contorno das árvores e os passarinhos em voo no céu. 

O garoto falou: -Sabe, avô, nada acaba realmente, o mundo é como o senhor diz, um sonho. 

O que é um sonho, afinal? Quando a gente sonha, acredita que existem elefantes 

amarelos, com asas, que falam, e tudo parece tão normal até que acordamos e dizemos que foi 

um sonho. O sonho existe de verdade, caso contrário não nos lembraríamos deles. O sonho é, 

então, um tipo especial de realidade. Ou a realidade é um tipo especial de sonho, que se acaba 

com a morte, e pensar na morte foi assim tão natural para o menino como se ele pensasse em 

uma brincadeira assim de faz de conta. 


Pois o mundo é isso, pensou o menino, Deus brincando de faz de conta. Faz de conta que 

agora é o tempo dos dinossauros e aí aparecem os dinossauros. 

Como os quadros no avô - faz de conta que são montanhas e árvores, mas sabemos que 

são apenas tinta e tela, e nossa imaginação faz o resto. 

- Como é a sua poesia, avô? A poesia em que você descreve o sonho de Deus. 

- Nós somos o sonho de Deus - começou o avô. 


Na tarde que se findava, o menino ouviu e sonhou a poesia do avô.  

Ele ainda está lá, sonhando, ouvindo e co-criando o mundo, enquanto eu e você ouvimos 

essa história e sonhamos com ele e seu avô e com as cores do pôr-do-sol que se repetem todos 

os dias sem que nunca haja um pôr-do-sol igual ao outro, porque assim são os sonhos de Deus. 


Aqui o nosso Concurso Literário Natureza:

https://novoscontosdasestrelas.blogspot.com/2026/06/concurso-literario-natureza-2026.html


Até breve.


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