3 poemas durante a Feira do Livro de Lisboa 2026
Boa tarde.
Hoje aqui ficam três poemas que fazem parte da Antologia Natureza 2025.
Brevidade, por Anderson Sandes
Andava ao ermo, sonolento
Com a face cálida e pálida
Jazia a sombra delgada
E longa, a sentido leste, ao vento
Como agulha de bússola quebrada
Fiel em sua errância certa
Cortou-me a sombra
A sombra d’um urubu
Rasante o augúrio que foi
Tremi a base à bamba
Larguei a carabina
Num instante sóbrio
E dirigi-me ao umbuzeiro
Sobrou-me o repouso
Fechei os olhos
E ouvi a música
Da máquina do mundo:
A casaca de couro
O coleirinho
O sabiá
O divino pardal
O temido carcará
O barulhento ferreiro
O cava-chão… não!
Quanto augúrio!
Belíssimo augúrio
É a brevidade da vida
Sim!
Sacudi o sobrolho e levantei
Já era noite e tudo era sombra
Outras aves e bichos
Cantavam agora
Deus me livre!
Ruidosa essa máquina!
O bornal vazio, olhei
Foi um alívio
Cansei-me das caças
De correr entre espinhos
Do cheiro de fluidos
Das vísceras lançadas
Das armadilhas
Está consumido!
Está consultado!
Está consumado!
Amanhã será diferente
Não em tudo, mas será
A sombra delgada
Continuará espichando
Em sentido leste
Deixa o sol trabalhar
A música da máquina
Continuará igual
Cada dia mais bela e rara
Vazio estará o bornal
Pois a caçada é cara
Em paz vou repousar
À sombra, em algum quintal
A Natureza do Amor, por Lua Queratti
Queria escrever sobre amor...
Mas amor! O que é isso, afinal?
Existem tantas histórias e relatos de todos os tipos.
Mas, pra mim, ele é complexo.
Tenho famílias que não são de sangue,
Irmãs de convivência (minhas meninas).
Mas amor mesmo,
Eu o chamo de raposa.
E ainda não o encontrei.
Espero, um dia, que o Raposa apareça.
Fora isso, tenho um amor forte —
Aquele que sempre me mantém fiel a mim mesma.
Ele me faz lembrar do que mereço,
E até onde vale a pena lutar por alguém.
Esse amor me mostra que posso ir além.
Esse amor... é o meu próprio amor.
Obrigada, eu.
Mas, afinal,
Qual é a natureza do amor mesmo?
Afinal, é enganador., por Mel Cavalheiro
É um monstro
É um anjo?
É o diabo
É o meu salvador.
Não se engane
É manipulador
É cruel
É feito para fazer sofrer.
Mas não se engane
É amoroso
É gentil
É feito para ajudar.
Não se engane mesmo
É solitário
É vítima
É feito para sofrer.
Mas por mais que se engane
É feito de mentiras
É feito de calúnias
É feito de absurdos.
Mas o sabes, sem se enganar
Que desde antes da consciência
Que desde antes da existência
É feito de substância.
E por deixar se enganar
E por deixar se manipular
E por deixar se ajudar
E por deixar se sofrer
E por deixar caluniar
E por isso, é o que é
E por isso, é humano.
Votos de continuação de boa Feira do Livro.
Até breve.
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